Texto: Paulo Coelho (13/06/2010)

Introdução

«As estâncias sanatórios tiveram o seu período áureo durante nos anos entre 1940 e 1950, depois disso entraram em decadência progressiva, até ao seu encerramento no final dos anos 1970»1. Duas grandes referências a nível nacional foram o Sanatório das Penhas da Saúde, situado na encosta da Serra da Estrela a 8 km da Covilhã, e a Estância Sanatorial do Caramulo, que veio a ser uma das mais importantes da Europa.

Para estes Sanatórios convergiam gente de todo o país e estrangeiro, muitos em estado avançado da doença que vitimava sem piedade homens e mulheres de todas as classes sociais.

A tuberculose pulmonar era altamente contagiosa, o internamento dos doentes era a melhor forma de impedir que a epidemia alastrasse. Na altura o melhor tratamento para a doença era bom ar, bom repouso, boa alimentação e sais de cálcio. «O regime sanatorial constitui para alguns o tratamento basilar, é como um grande colégio em que todos obedecem e praticam cegamente as normas que lhes são aconselháveis.»2

A história de uma busca

Este relato aqui criado em formado de diário retrata a história de famílias cujos familiares faleceram nos Sanatórios espalhados pelo país e que por lá foram sepultados. Infelizmente nesta história, e por falha nos registos da altura não é possível localizar com exactidão o local onde o doente fora sepultado. As condições desfavoráveis das famílias portuguesas na década de 70, não permitia que se reclamasse os corpos e se fizessem a sepultura nos cemitérios da sua residência. Descobri que todos os meses eram sepultados entre 2 e 6 doentes vindos dos mais de 18 Sanatórios existentes no Caramulo. Doentes vindos de Lamego, Vila Real de Santo António, Sertã, Góis, Penalva do Castelo, Chaves, Gondomar, Lisboa, Feira, Lagoa, Sertã, Ponte de Lima, São Vicente (Cabo Verde) entre muitas outras cidades, foram sepultadas no Cemitério do Guardão (Caramulo).

Em busca de Joaquim de Sousa

Tudo começou com um e-mail de 31 de Janeiro 2010, recebido apenas em Março devido a ser uma caixa de correio pouco usada na altura. A mensagem era inédita, embora receba vários pedidos de estudantes, estações de televisão, empresas de multimédia solicitando informações sobre o Sanatório das Penhas da Saúde. O pedido de localização de um doente falecido num Sanatório era realmente novo, despertando de imediato o meu interesse já que seria uma oportunidade de perceber como funcionavam estes serviços.

Aqui fica a história, cronologicamente organizada:

Enviada: domingo, 31 de Janeiro de 2010 14:08
Para: paulocoelho
Assunto: UMA SIMPLES informação


É  com um aperto no meu coração que lhe estou a enviar este pequeno email pois ao percorrer a net encontrei no seu site aonde me veio uma grande alegria pois estive a ler coisas maravilhosas  assim fico a saber pois talvez sobre meu pai ou seja o sitio onde ele passou os últimos momentos da vida dele pois meu pai Joaquim de Sousa estava no Sanatório e infelizmente nunca conseguimos saber onde foi enterrado. Já corremos tudo ou seja o que nos foi possível de confirmar por isso ao ver seu site uma alegria  veio em mim talvez o senhor possa me dar alguma informação sobres as pessoas pobres como era o nosso caso não havia dinheiro pois somos nove irmãos naquela altura éramos pequeninos eu apenas tinha 5 anos por isso lhe peço  ajuda.

Não o vou maçar mais desculpe se incomodei

Me despeço esperançada numa resposta sua mesmo negativa por favor

MARIA CONCEIÇÃO

 

Sábado, 27 de Março de 2010 20:09

Correio electrónico recebido de uma das filhas de Joaquim de Sousa

Assunto: Re : Sanatório Covilhã

EX Senhor Paulo Coelho

Peço desculpa por não ter respondido há mais tempo mas infelizmente não podia escrever, estive no hospital a fazer uma operação a mão por isso escrever só com uma mão é um pouco complicado mas ainda lá vou! Como disse no e-mail eu estou em França sim com meus filhos tenho 3 um rapaz e 2 raparigas:

Fico muito agradecida pelo seu e-mail que veio iluminar meu dia nem pode saber o bem que me fez saber que alguém me pode dar informações para mim é uma imensa alegria!

O meu pai era uma pessoa segundo meus irmãos adorava escrever,  tinha muito jeito para escrever cartas; seja lá para quem for mesmo para o presidente se fosse preciso era uma espécie de revolucionário J ele detestava injustiças e fazia entender a onde quer que fosse por isso o levou a prisão com água até ao pescoço assim veio a doença da tuberculose, infelizmente.

Também adorava fazer rendas tinha muito jeito para isso mas sobretudo o que ele fazia que presumo que devia ter feito era quadro ele fez 2 um do Sporting e do Benfica muito lindos que temos como recordação ou seja estou a ver se o vou ter este ano pois é um amigo que o tem no clube por isso presumo que ele teria nas horas vagas no sanatório feito alguma coisa seja escritos ou quadros se assim for gostaria de os ver ou outro se por acaso tiver alguma foto com ele agradecia se podia mandar .

Aqui vai uma foto do meu pai pois é uma das poucas que temos talvez você ai conheça alguém que possa reconhecer seria um milagre para mim como para os meus filhos eles  gostavam de saber historias do avô.


(Foto de Joaquim de Sousa no Sanatório das Penhas da Saúde)

O senhor pediu-me o nome do meu pai pois aqui vai

JOAQUIM DE SOUSA
VALLE TRAVESSO 2490
VILA NOVA DE OURËM

(QUE AGORA  Ë NOSSA SINHORA DA PIADADE OURËM)

 DATA DE NASCIMENTO  05/01/1920

Se não me engano faleceu a 07/06/1970

Agradeço desde já a sua boa disposição de me ajudar é bom poder contar com alguém depois destes anos todos.

Espero noticias suas
me despeço com um abraço de amizade

Mais uma vez muito obrigado você foi um anjo que pôs no meu caminho
Maria Da Conceição Oliveira De Sousa 

 

Sábado, 17 de Abril de 2010

Estou desolado. Hoje, fui ao Caramulo em busca de Joaquim de Sousa, falecido a 07 de Junho de 1970. Parei no posto de turismo do Caramulo, local onde esperava uma orientaçao. Recolhi apenas um pequeno mapa e segui para o Hotel do Caramulo, um antigo Sanatório. Em 1970 estivam aqui em funcionamento mais de 18 sanatórios, fiquei muito surpreendido. Na memória trago a fotografia de Joaquim de Sousa enviada pela filha. O fundo da foto é realmente no Sanatório das Penhas da Saúde da Covilhã e não qualquer edifício aqui do Caramulo. Sei que muitos doentes foram transferidos da Covilha para outros sanatórios, aquando do encerramento deste em 1969.

Entrei no Hotel do Caramulo (antigo Sanatório Salazar) e pedi para visitar algumas áreas comuns e tirar algumas fotos. Pouco resta desses tempos. O edifício guarda poucos vestígios, alguns azulejos, fotos antigas na parede. O local da igreja e o local de repouso com uma vista soberba do vale que nos leva ao olhar longínquo até à Serra da Estrela. No carro estão as minhas filhas que não sabem ao que viemos, adormeceram, são pequenas para perceber que o pai anda em buscar do passado, têm 3 e 6 anos. Começa a chover, aproxima-se uma nuvem muito densa vindo dos lados de Santa Comba Dão. Desisto e regresso, percebi que tenho muito que investigar aqui, não gosto mesmo do aspecto das nuves que se aproximam e não quero pôr em risco as minhas filhas. Começa a chover mais. Deixo Caramulo e passo por Guardão de Baixo.

Avisto ao longe uma aberta que me faz mudar de ideia, se estou aqui vou aproveitar. Meto-me no meio das aldeias na procura da junta de freguesia do Guardão, onde estão os registos dos sepultados no cemiterio. Na estrada dezenas de escuteiros procuram algum sítio, parecem desorientados e até perdidos. Vejo-os a pedir informações às pessoas que passam na rua. Sigo a minha missão. Falei com uma senhora que me disse que a Junta de freguesia funciona no posto de turismo. Volto á, e falo com a Senhora que me atendeu e peço mais informação da junta, mas pouco mais sabe do que funciona aqui e nas instalações dos Correios. Pedi a direcção do Cemitério de Paredes onde está sepultado Joaquim de Sousa. Sigo as indicações, passo a farmácia rumo ao centro da povoação até avistar o cemitério. As miúdas já acordaram, e ficam no carro. Não quero que elas saibam para onde vou, o portão do cemitério parece fechado. Caem mais algumas gotas de chuva. Aproximo-me do cemiterio e toco na porta. Está aberta. Que alívio. Subo as escadas até ao centro, o meu olhar é levado ao jazigo de “Abel Lacerda e família”, é imponente, é uma capela em ponto pequeno. É digno de gente muito importante, registei o nome na minha memória para mais tarde procurar saber mais.

Olho em volta e só me dá vontade chorar, dezenas de campas somente com um número. Como será possível viver-se uma vida e acabar-se assim, apenas num número. Um alto de terra e um número indicando a secção A, B ou C e número correspondente da campa. Nada mais. Tanta gente nas mesmas condiçoes. Quem são? Estou triste, nunca tinha pensado que podia ser assim. Reflicto e baixo o olhar, nunca irei conseguir encontrar Joaquim de Sousa. Pode ser qualquer uma destas dezenas de campas anónimas. E agora? Acabo por aqui?

Deixo o cemitério e sigo em direcção ao Museu do Caramulo. Na semana passada numa chamada telefónica, o presidente da junta do Guardão comentava que havia uns registos do sanatório que estavam num edifício do museu. Paro em frente ao museu. As miúdas ficam no carro. Entro no museu e avisto os carros antigos, uma imponente colecçao. Após alguns minutos uma pessoa dirige-se a mim e explico ao que venho. Muito receptiva indica uma outra pessoa D. Margarida que será a pessoa que me pode ajudar. Pediu-me o nome da pessoa que procuro e dirigiu-se ao edifício em frente, que também faz parte do Museu, onde alberga uma colecção particular da família Lacerda.

Levo as miudas comigo, brincam na escadas do museu e eu aguardo no hall de entrada. Um senhor aproxima-se, é funcionario do Museu e comento com ele “quem é Abel Lacerda, se seria médico”. Ele diz que não tem de ser médico que por acaso é formado em economica. É filho de Jerónimo de Lacerda fundador da estância de saúde do Caramulo. Compreendo agora a existencia do Museu. Sei de mais histórias em Portugal, em particular de Trás-os-Montes, aldeia de Romeu, onde um ilustre industrial do Porto levou os caminhos de ferros até ao interior do país para transportar a cortiça. Bom, não interessa para agora.

As notícias são as que já eu já esperava “não há registo nenhum”. Não é possível tratar desde assunto em 10 minutos. Esta busca requer tempo, dedicação, dias, semanas e meses. Regresso a casa, convicto que não será uma tarefa fácil, mas que não levo parar por aqui. Ainda posso contactar mais pessoas. Talvez contactar o pároco da freguesia. Tem de haver um registo digno.

«De 27 de Fevereiro de 1969 em diante só irão ser registados neste livro os enterramentos de que foram encontrados elementos até final de 1974. De um de Janeiro de 1975 em diante estão todos registados com exactidão. Caramulo, 1 de Agosto de 1977» in livro de Registo de Enterramentos da Estância do Caramulo

 

Domingo, 25 de Abril de 2010 17:54

E-mail recebido de uma das filhas de Joaquim de Sousa

Assunto: Resposta ao e-mail de Maria

Olá Sr. Paulo não nos conhecemos mas já ouvimos falar ambos um do outro sou irmã da Maria e ela pediu-me para o esclarecer sobre algumas coisas relacionadas com o meu falecido Pai. Todos nós éramos pequenos somos de facto muitos irmãos 9 eu sou do meio tenho 4 mais novos e 4 mais velhos ela e mais nova que eu 5 anos e quando o meu Pai morreu eu tinha 10 anos e natural que não me lembre de muita coisa mas as imagens mais marcantes o nosso subconsciente guarda.

Fui eu que andei na Covilhã a procura do cemitério onde supostamente o meu Pai deveria de ser enterrado mas depois de bater a tanta porta e de me garantirem que ele nunca tinha sido enterrado em cemitério nenhum chegamos a conclusão que ele fora cremado pois havia um crematório no Sanatório e como a doença era contagiosa aceita-se que as roupas e tudo tenha sido queimado só tenho pena e de não dizerem  a minha falecida Mãe o que iam fazer pois nós quando tivemos oportunidade fomos tentar saber onde ele se encontrava e encontrávamos sempre  entraves até  que eu um dia decidi ir ate ao fim e descobrir o que realmente tinha acontecido. O meu Pai era muito habilidoso por onde ele passou deixou sempre recordações, sei pela minha irmã que o Sr. tem coisas de alguns doentes em seu poder isso sim eu gostava de saber se tem alguma coisa que tivesse sido feito por ele. De resto acho que já nada importa, já passaram muitos anos e já nada faz sentido remexer em coisas que foram tão dolorosas; alguma coisa que me queira perguntar estou a disposição.

Sem outro assunto me despeço.
Atentamente Filomena
Mais uma vez obrigado

 

Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Passaram 10 dias sem qualquer avanço. A única esperança que me resta é falar no próximo sábado com o Padre José Ribeiro que mora em Campo de Besteiros. Tem actualmente 90 e poucos anos mas toda a gente o conhece e foi pároco do Caramulo. Tenho a certeza que terá novidades sobre os doentes do Sanatório.

Entretanto ontem recebei uma mensagem de uma das filhas de Joaquim de Sousa, que andou também já em busca de seu pai e concluiu que terá sido cremado no Sanatório das Penhas da Saúde na Covilhã. O que me parece não estar correcto, não tenho registo de haver crematório lá. Acredito que ele foi transferido para um dos Sanatórios do Caramulo quando se deu o encerramento na Covilha. Consigo essa informação nos documentos que possuo em casa.

Sábado, 01 de Maio de 2010

Regressei ao Caramulo, desta vez só com uma filha. A outra ficou em casa de uma amiga que faz anos. Prossigo a minha busca. Combinei com o Presidente da Junta, ir ao registo do cemitério de Paredes para ver se procuro algo. O dia está solarengo. Vou a casa dele e seguimos para o edifício dos correios, onde analiso os registos. Mais uma vez fico desolado, já sabia que havia uma lacuna nos registos. Mas custa-me a crer como é possível em mais de 4 anos não haver qualquer registo das pessoas que foram ali sepultadas. Tiro alguns registos e seguimos para uma volta a alguns sanatórios. Encontramos o neto de Jerónimo Lacerda que nos guia pelo edifício do Sanatório de Jerónimo Lacerda. Em algumas zonas muito semelhante ao Sanatório das Penhas da Saúde só que mais bem conservado. Conversamos por entre corredores, salas de tratamento, sala de conferência até teatro tinha. Foi um edifício muito moderno para o seu tempo, tal como o da Covilhã. Tirei algumas fotos e sou informado que dentro de 2 horas será lançado na Biblioteca de Tondela o Livro do Dr. António Veloso intitulado “CARAMULO – Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos”. O livro já se encontra à venda num café do Caramulo. Comprei-o de imediato e sigo para a Biblioteca. Fico contente porque percebo que este livro de capa vermelha me vai ensinar muito sobre os Sanatórios. Chegado à Biblioteca, encontro algumas pessoas já conhecidas, conheço o Padre José Ribeiro e falo com ele sobre a minha missão. Ele comenta que não me pode ajudar porque não tem acesso aos registos, que deverei procurar o novo pároco do Caramulo. Vive actualmente em Vilar de Besteiros. Não tenho tempo de assistir ao lançamento do livro, com muita pena minha, tenho de ir buscar a miúda que outra amiga que ficaram na festa. Termino por hoje a minha busca.

Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Foi fácil arranjar o contacto do novo pároco. Falei com ele mas não existe na Igreja qualquer registo deste período. Mesmo que houvesse, não iria ter o registo do número da campa de Joaquim de Sousa. Esgotei as possibilidades de dar às filhas a informação do local onde o seu pai está sepultado. Apenas as irei informar que terá sido transferido do Antigo Sanatório das Penhas da Saúde - Covilhã para um dos Sanatórios do Caramulo, tendo falecido neste último às 15h00, do dia 07 de Junho de 1970, com a causa de Tuberculose Pulmonar (3).

Segundo análise aos registos da Junta de Freguesia e seguindo a lógica dos registos de 1970, ele terá sito sepultado no Cemitério de Paredes, da Freguesia de Guardão (Caramulo) na secção C, numa campa com o número superior ao 322 mas muito próximo.

Todas as sepulturas de 1967 estão na secção B, seguindo em 1968 para a secção C e em 1970 as novas sepulturas seguem na secção C (embora haja algumas sepulturas na secção B).

 

(1) in Caramulo “Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos” de António Veloso(

2) in Caramulo “Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos” de António Veloso

(3) Fonte: Assento de óbito nº211, do Registo Civil de Tondela de 11/06/1970.

 

Registo de profissões, cidade de origem, e sanatório onde faleceram
in livro de Registo de Enterramentos da Estância do Caramulo

Foto actual tirada no Sanatório Jerónimo Lacerda Caramulo - sala de Raio X

Sanatório de Jerónimo Lacerda Caramulo - condição de quarto actual

Sanatório Jerónimo Lacerda Caramulo - Banho privativo no quarto

Sinais do tempo e abandono - Sanatório Jerónimo Lacerda

Igual a tantos outros edificios, pormenor dos azulejos

*********

Depois de enviar este trabalho à família houve alguma troca de informação que acabou definitivamente com as dúvidas:

 

Enviada: quarta-feira, 16 de Junho de 2010 16:57

Para: paulo@coelho.pt

Assunto: resposta ao mail

 

Olá boa tarde Sr. Paulo, acabei de ver o seu email com toda a atenção que merece, mas permita-me discordar de algumas coisas. O meu falecido pai esteve no caramulo sim mas foi transferido para as Penhas da Saúde para ser operado onde de facto foi e ao fim de três dias faleceu a minha (também falecida) mãe foi visita-lo com um irmão meu que na altura tinha 13 anos e viram-no na morgue nas Penhas da Saúde ela tinha falado com ele através de telefone público que era o que existia na altura, onde lhe disse que iria vê-lo no dia seguinte se precisava de alguma coisa que lhe levava ele  ainda falou com ela onde lhe disse para não ir pois era muito longe, mas ela coitada mesmo sem recursos lá foi com um filho esse irmão meu que se lembra do hospital  foram de comboio para a Covilhã, e de lá, de autocarro ate ao sanatório; quando chegaram as pessoas competentes não estavam ou não tinham coragem de aparecer e mandavam-nos de um lado para outro. Ate que um médico lhe informou do acontecido ele tinha falecido as 07h15m da manhã. Por essa razão eu discordar, uma vez que nessa época não levavam um defunto para tão longe como o caramulo, e nessa altura foi dito à minha mãe que ele ia ser sepultado na Covilhã onde andei a basculhar TUDO e sem resposta logo a conclusão que tirei

Também não pus nunca em causa que houvesse distinção entre os menos desfavorecidos mas...convenhamos Sr. Paulo vivíamos numa ditadura.... eu felizmente não me lembro desse tempo mas sei o que a minha Mãe passou, porque quando o meu Pai faleceu ela ficou sozinha com 9 filhos em que o mais velho tinha 17 anos e a mais nova 15 meses ELA que DEUS a tenha foi uma grande mulher apesar de parecer frágil era pequena magrinha e coxa (não de nascença, mas uma tia minha tinha deixado cair ainda de colo e deslocou a anca). Foi a mulher mais corajosa que ate hoje conheci; quem me dera um pouquinho da coragem que ela teve ate mesmo com a doença que a vitimou e da qual eu neste momento padeço. Desculpe este desabafo mas estou  muito sensibilizada um abraço e qualquer coisa da nossa parte disponha.

 

*****

 

From: Paulo Coelho

Sent: quarta-feira, 16 de Junho de 2010 17:11

To: 'mena'

Subject: RE: resposta ao mail

 

Olá boa tarde

Agradeço o seu e-mail com essa informação. Mas por favor antes de “discordar” analise a minha pesquisa.

O sanatório da Covilhã encerrou portas em 1969 e o seu pai faleceu em 1970. A certidão de óbito de seu pai
foi passada em Tondela (Caramulo). Não existe qualquer dúvida. O seu pai faleceu no Caramulo.

Posso enviar a copia da certidão de Óbito e até posso ir pessoalmente falar com o conservador de Tondela
para verificar a veracidade desse processo. Não tenho dúvidas disso.

 

Por favor comente com os seus irmão se a minha conclusão possa ter validade,

 

Ao dispor,

 

*********

 

 

De: Mena

Enviada: quinta-feira, 17 de Junho de 2010 09:37

Para: Paulo Coelho

Assunto: resposta

 

Bom dia Sr. Paulo obrigado por continuar com o caso do meu pai agradeço-lhe do fundo do coração e assim que eu estiver (menos debilitada)prometo ir pessoalmente ate seu escritório agradecer  o que o Sr. tem feito por nos desde já o meu  Muito Obrigado continuo a conversar com o meu irmão sobre onde poderia estar uma vez que o Sr. disse ter fechado o Sanatório das Penhas da Saúde em 1969 ele tinha 13 anos e minha mãe não gostava de falar sobre esse assunto neste  momento andamos a mostrar-lhe fotos e tentar leva-lo ate ao caramulo para ver se as lembranças dele voltam para finalmente tirar-mos as duvidas porque eu toda a minha vida andei  (enganada) se ele foi enterrado no Caramulo neste momento ele também esta baralhado mas uma certeza ele tem ele morreu de manhã pois a minha mãe quando chegou ao sanatório era de manhã e ele ja estava na morgue essa imagem ele não a consegue tirar da cabeça a minha mãe agarrada ao caixão (que diz ele era duas tábuas ...mas isso na altura era o normal )e ela levava-lhe o almoço e uns rebuçados que ele tinha pedido na véspera eles tinha saído de casa as 4h da manhã e chegaram de manhã ao dito sanatório por isso ele faleceu antes das 15h de resto já não posso assegurar nada pois ele esta baralhado com as fotos mas esperamos tirar isto a limpo, mais uma vez obrigado por tudo.          Ate

sempre  

 

*******                                                                                     

From: Paulo Coelho

Sent: quinta-feira, 17 de Junho de 2010 11:57

To: 'mena'

Subject: RE: resposta

 

Olá D. Filomena

 

Confesso que desde ontem quando recebi o seu e-mail discordando daquilo que me parecia ser o mais obvio, ando até agora a pensar nisso.

 

Acho que poderá ser relevante falar com o seu irmão. Vamos dar um tempo pois quero ter a certeza de tudo o que está escrito por mim.

Em Março de 1969 os doentes começaram a sair da Covilhã, mas vou saber o dia oficial do encerramento correcto.

 

A partir daqui pode-me parece que a sua mãe deverá ter ido para a Covilhã, daí ninguém saber de nada quando lá chegou e
depois terá sido enviada para o Caramulo, pois o Sanatório da Covilhã teve sempre gente após o seu encerramento e foi
usado para outros fins.

 

Vou contactar o registo de Tondela e saber se quem fez o registo do óbito de seu pai ainda é vivo e quero saber de ontem
partiu a informação do óbito, pois não tenho duvidas o seu pai está no Cemitério de Pareces no Caramulo.

Estou convicto disto daí não aparecer qualquer registo na Covilhã.

 

Mais uma vez estou convosco até sabermos a verdade,

 

Cumprimentos

****

Nota pessoal:
Compreendo que depois de 40 anos de procura pensando que estivesse em Covilhã não será facil aceitar que na verdade tudo se passou noutro lugar, neste caso no Caramulo. De qualquer forma fica os documentos provando a conclusão inicial.

Caramulo, Sábado, 26 de Junho de 2010

 

Após uma visita ao Padre José Ribeiro em Campo de Besteiros, no sábado passado, hoje foi o dia de me encontrar com o Padre do Caramulo. Combinámos às 15h00 na Igreja matriz do Guardão, onde já me esperava. Vi os livros e na verdade na Igreja não há registos desses anos, pelo menos no modelo tradicional de registo em “livro de Óbito”. Apenas existe umas cópias desses anos mas que contemplam apenas pessoas da freguesia, o que nos levou a pensar que poderá existir um outro livro. As datas de não registo coincidem com as da Junta de Freguesia do Guardão, tornando as coisas mais difíceis de perceber. Por aqui nada feito, apenas mais duvidas.

Às 17h30 combinei encontrar-me com João Maria Lacerda, bisneto de Jerónimo de Lacerda. Para queimar o tempo visitei o Museu do Caramulo pela segunda vez. As miúdas e a esposa acompanharam, para elas foi a primeira vez. Encontrei João Maria já à minha espera no Museu dos carros, deslocamo-nos ao edifício de onde eu tinha acabado de sair. As miúdas esperaram cá fora a brincar. Descemos à tipografia, e procurámos possíveis documentos pertencentes à Sociedade do Caramulo que nos pudessem dar alguma pista sobre Joaquim de Sousa. Por entre fotografias de Jerónimo de Lacerda, Oliveira Salazar e fotos de equipas clínicas acumulam-se livros, documentos e objectos de arte. Por cima de um armário acumulam-se gavetas de fichas dos doentes. Estavam num consultório médico fechado, no Sanatório Jerónimo de Lacerda, foram trazidos para aqui recentemente. Por sorte, as gavetas de melhor acesso tinham o nome de Joaquim. Estava organizado por ordem alfabética, era só uma questão de paciência e procurar com calma. Assim foi. Por entre conversas sobre viagens lá procurei por todos os doentes Joaquim, até encontrar “JOAQUIM DE SOUSA, agricultor, de 45 anos, casado, natural de Vale Travesso – Vila Nova de Ourém. Processo clínico 31973”.

Agora sim, não restam dúvidas. Já não necessito de ir mais longe. Está definitivamente confirmado.

 

Fica a cópia da ficha clínica e da certidão de óbito:

 

Ficha individual de Joaquim de Sousa, arquivo do Antigo Sanatório Jerónimo Lacerda, mencionando:
«que em casa também se trata» certamente algo que terá dito após o primeiro internamento e que
foi anotado à mão na sua ficha. «Alta em 07/06/1970 por falecimento no P.C.» que seria o Pavilhão
de Circurgia.

Aqui registava apenas 8 filhos, já que o filho mais velho teria 17 anos e o mais novo 15 meses. Esta ficha foi preenchida no seu primeiro internamento no Caramulo em 24/11/1965.

Certidão de Óbito passada pelo Registo Civil de Tondela, onde menciona que foi sepultado no Cemitério de Paredes, da Junta de freguesia do Guardão - Caramulo.

Agora sim, termino este trabalho com grande satisfação.

*******

From: Paulo Coelho

Sent: domingo, 27 de Junho de 2010 01:20
To:
'mariaconceicao; mena
Subject: Joaquim de Sousa *conclusão final*

 

Olá D. Conceição /D. Filomena

 

Esta tarde concluí o trabalho de procura do vosso pai.

Graça a grandes amigos que fui encontrando ao longo desta investigação tive acesso à ficha de registo do vosso pai.

Entre milhares de fichas, tive a sorte de encontrar a ficha do vosso pai, onde todas as duvidas se dissiparam.

A minha primeira conclusão está realmente correcta – o vosso pai está no cemitério de Paredes – no Caramulo – na freguesia de Guardão. Existem dois cemitério nesta freguesia, tendo sido o cemitério de Paredes (Caramulo) construído para os falecidos na Estancia Sanatorial do Caramulo.

 

Infelizmente pelas razões registadas no meu texto – não consigo dar o numero da campa exacto apenas aproximado. Lamento.

 

Espero que assim possam tranquilamente visitar o Caramulo e prestar homenagem.

 

Por mim, fico por aqui, foi um prazer ter feito este trabalho. Desejo-vos a todos as mais felicidades,

 

Até um dia

Paulo Coelho

 

*****

Livro de registo da Paróquia do Guardão, onde apenas constam as pessoas enterradas no Cemitério de Guardão e não no Cemitério de Paredes. As pessoas naturais daqui não queriam ir para o Cemitério de Paredes, já que este foi construído somente para os falecidos nos Sanatórios do Caramulo. Hoje tal já não acontece.

Vista actual para o Cemitério de Paredes (Caramulo). Foto tirada desde o pavilhão desportivo (Caramulo).

Gaveta onde foi encontrada a ficha de Joaquim de Sousa. Arquivo Antigo Sanatório Jerónimo de Lacerda.

Vista da Igreja do Caramulo e do Antigo Sanatório Jerónimo de Lacerda

Cruzamento de acesso ao actual Lar Pedras Soltas "Antigo Sanatório das Pedras Soltas" onde esteve hospitalizado Joaquim de Sousa.

Antigo Sanatório Pedras Soltas - Actual Lar Pedras Soltas

 

 

Para finalizar gostaria de deixar os meus agradecimentos a todos os que me ajudaram nesta busca:

Padre Jose Ribeiro (foi Paróco nesta paróquia durante 40 anos - era o padre na altura)
Padre Cardoso (Vilar de Besteiros)
Padre António Ferreira (actual Padre do Guardão)
Dr. António Ferreira - Presidente da Junta de Freguesia do Guardão
Graça Marques (Campo de Besteiros)
Registo Civil de Vila Nova de Ourém
Museu do Caramulo (Fundação Abel Lacerda)

e um agradecimento muito especial a:

João Maria Lacerda (bisneto de Jerónimo de Lacerda),
minha esposa e filhas que me acompanharam em todas as viagens ao Caramulo

 

Paulo Coelho e João Maria Lacerda no Museu do Caramulo,em 26.Junho.2010