Pelo Professor JOSÉ FRANCISCO RODRIGUES

 

Esta palavra turismo, segundo lexicólogos ilustres, vem do inglês tourism, calcado por sua vez pelo francês tour (volta). C. Figueiredo cita o francês tourisme que vem do inglês e é possível que tenha sido o veículo (Antenor Nascentes).

Em completa concordância com Cândido de Figueiredo, Augusto Moreno (Dicionário Complementar da Língua Portuguesa) define-o como o gosto de viagens; viagens de recreio.

Quer tomemos uma quer outra definição, surpreendemos nas palavras com que é definida a ideia, um elemento nitidamente subjectivo, expresso na primeira definição no vocábulo gosto e na segunda recreio que significa prazer, divertimento. É este elemento subjectivo do conceito de turismo que hoje no interessa considerar estas considerações tornam-se tanto mais necessárias quanto mais desprezado tem sido esse aspecto do turismo ou, antes, a sua projecção na industria turística.

A nossa época trepidante, extrovertida é propícia à dissipação e avessa à análise subjectiva e ao exame de projecção, nos domínios da personalidade, das actividades sociais.

No campo do turismo esta triste verdade traduz-se numa orientação, digamos, materialista das actividades que tendem a prepará-lo com desprezo deste aspecto subjectivo do que estamos falando.

Assim, pensa-se geralmente eu havendo estradas excelentes, hotéis higiénicos e confortáveis, pousadas artísticas e bem localizadas, paisagens pitorescas, costumes curiosos, museus magnificamente recheados, industrias prosperas – estão realizadas as condições ideias para o turismo e que este há-de, forçosamente desenvolver-se. Nada mais errado. O elemento gosto pessoal, recreio, prazer individual é, como vimos, essencial ao conceito de turismo.

Aventamos até que é mais fácil haver turismo sem aqueles elementos materiais, objectivos do que sem este elemento pessoal, subjectivo. Pode um país ou uma região possuir aquelas condições todas e não atrair a curiosidade ou não suscitar o interesse que leve à permanência dos peregrinos do Belo, do farejadores de curiosidades, dos apetecedores de conforto ou dos curiosos do progresso. Para tanto basta que a hospitalidade das gentes da região ou do país não seja acolhedora, que o ambiente psicológico, social, moral, não agrade, não prenda, não convide à permanência.

E pode suceder o contrário. Pode dar-se que uma terra inóspida, sem conforto, nem progresso prenda o visitante, mergulhando-o numa atmosfera de quietude pacificadora, de curiosidade cativante, propicias a esse prazer pessoal que procura todo o viajante e que é essencial para o turismo.

O caso do inglês Jonh Gibbons, ocorrido à poucos anos entre nós, afigura-se-nos elucidativo a este respeito. Levado pela sua curiosidade insaciável de globe-trotter a uma aldeia nas margens do Douro. Ficou desolado com a falta de luz eléctrica, de estradas, de pensões, e pensou em ir-se embora no dia imediato. Preso pelo interesse e pela hospitalidade da gente ficou e permaneceu ali durante alguns meses e juntou material de observação com que compôs um livro que veio a ganhar o premio Camões, atribuído pelo então secretário da propaganda nacional ao melhor livro estrangeiro sobre Portugal.

Dir-me-ão que se trata de um caso isolado e que hoje o que deve interessar às nações é a organização do turismo em alta escala, como uma indústria, como uma fonte de receita vivificadora da vida económica.

Evidentemente. Mas entenda-se: isso não invalida nem diminui em nada a força convincente da tese que temos em mente e que procuramos provar e justificar: dos dois aspectos do problema do turismo, embora inseparáveis, como as duas faces de uma medalha, este de que tratamos não é, de modo nenhum, de somemos importância e merecia ser olhado com mais cuidado e carinho. E não fosse o receio de provocar perturbações gástricas a estômagos fracos, pouco habituados a digerir comida forte de verdade, iríamos até que a sua importância é primacial; que a percepção deste ambiente psicológico, social e moral indispensável ao turismo é uma necessidade mais instante que a de certos melhoramentos materiais visando esse fim. Bem sabemos que essas condições materiais são as bases em que há-de assentar a organização turística do país. Não pretendemos que se desprezem, para encarar o fenómeno turístico só no seu elemento subjectivo, e pretende fomentar o turismo unicamente por meios que, aliás, estão condicionados à educação do povo, infelizmente ainda tão atrasada. Mas, se não pretendemos isso, também não admitimos que o contrário esteja certo. E é assim que se tem feito. Ora proceder assim é quási como querer obrigar uma pessoa a ser feliz à força, a sentir gosto de fora para dentro…

Há aqui uma questão delicada, subtil que exige, para ser compreendida, uma breve digressão pelos campos da psicologia.

O prazer é um fenómeno íntimo, que o homem pode experimentar só de dentro para fora, embora possa ser provocado por fenómenos exteriores e traduzir-se também em manifestações exteriores. Possa escrevemos: é que pode também não ser provocado dor fenómenos externos e não se traduzir em manifestações exteriores, sem que por isso deixe de existir. Por outro lado os mesmos estímulos podem ou não provocar sensações de prazer, conforme as condições pessoais de receptividade quere dizer: o problema está na pessoa que sente. Se abstrairmos essa pessoa não pode haver prazer.

Ora bem: o prazer de viajar, essas viagens de recreio esse gosto de viagens a que chamam turismo, também não se pode conceder separadamente da pessoa que o sente. Para que esse prazer exista temos de admitir que a pessoa pode senti-lo, está em condições de o sentir. E para que isso aconteça é preciso dar-lhe uma educação adequada, primeiro, e depois prepara-lhe o ambiente propício.

Atingimos aqui um ponto pessoal de questão. Quer olhemos o problema pelo lado do turista que viaja, quer pelo das pessoas que o servem (empregados das empresas de transporte, das industrias hoteleiras, etc.) surge-nos sempre a grave questão da preparação apropriada, da educação turística (social, estética, etc.) dos homens. Sem essa preparação não pode existir gosto de viagens, não pode haver turismo.

Creio que é nesta falta de preparação que o português que reside o seu desinteresse pelo conhecimento da nossa terra e das outras.

Creio que é ainda por essa falta de preparação, de educação que se explica o lamentável facto de o turismo não se ter desenvolvido entre nos como uma verdadeira e importante industria.

Duas dolorosas realidades:

      - O português não é turista;

      - O português não abe atrair turistas.

Uma única explicação:

     - A nossa falta de preparação, ou, por outras palavras, o atraso da nossa educação.

Não objectam. Eu sei. Todo o exclusivismo é vicioso. Pôr a questão deste modo unilateral é forçar a realidade a falsear a verdade. Há outros problemas…

Pois há. Mas se formos bem ao fundo acharemos sempre esta base de areia movediça sobre a qual nada de verdadeiramente estável e sólido se pode construir: a falta de uma educação eficiente.

As deficiências dos transportes que transformam as viagens num calvário, o baixo nível de vida que impede muitos de satisfazer as suas necessidades fundamentais e, fortiori, de viajar, creio que tudo se resolveria bem e em pouco tempo se houvesse iniciativa, cooperação, espírito de solidariedade, energia, disciplina compreensão dos deveres cívicos, em suma: actividade consciente e tensão constante de dirigentes e dirigidos.

Infelizmente estamos muito longe desse ideal.

É por isso que esta palavra turismo é ainda, em grande parte, para nós, uma palavra vã.