Este é um assunto que até hoje tinha reservado qualquer tipo de opinião por tudo o que se passou (e não passou). Todos vivemos este drama de perto porque aconteceu no nosso país e teve a importância que lhe demos. Convém não esquecer que todos os dias desaparecem crianças na Europa e não ouvimos falar de nada.

 

Certamente muitos de nós (incluído eu) mudámos de opinião ao longo do tempo sobre o que aconteceu e quem foi o seu responsável, fruto das notícias que nos chegaram.

Curiosamente vivi no passado dia 3 de Maio 2008 (dia da comemoração do desaparecimento da pequena Madeleine), uma experiência que me levou a escrever este texto.

Aconteceu em Maiorca quando fazia uma viagem de autocarro entre o hotel e aeroporto de Maiorca com a minha esposa e as minhas duas filhas (4 e 2 anos). Como a logística era grande e uma das minhas filhas tinha adormecido no autocarro, deixei toda a gente sair, desci para tirar as malas e a miúda ficou no autocarro. Tirei as malas e gritei ao motorista

- Não saia que tem uma miúda dentro do autocarro!

O que provocou no motorista, um homem dos seus quase cinquenta anos, um sorriso e uma pausa no seu trabalho para me contar uma história que lhe tinha acontecido recentemente.

 

“Uma noite depois de ter deixado um grupo de ingleses no hotel, regressava juntamente com o guia para casa. No caminho ouvimos um barulho no autocarro, era uma criança que tinha caído. Parámos o autocarro e tentámos perceber o que tinha acontecido para termos uma criança esquecida no autocarro. Resolvemos voltar para o ultimo hotel onde tínhamos deixado o grupo. Na nossa ideia, o cenário mais provável quando chegássemos ao Hotel era encontrar a Polícia Civil Espanhola e os pais em alvoroço. Mas tal não aconteceu. No Hall do hotel ninguém se movimentava. Fomos à recepção levando a criança connosco, mas ninguém tinha reclamado a falta de uma criança. Depois de várias pesquisas por todos os quartos que tinham crianças, finalmente encontrámos os pais – A DORMIR! Estavam bêbados.”

 

Não é uma história de ficção, NÃO, não é! Foi contada com tanto realismo e revolta que o motorista do autocarro parecia que tinha acabado de ser despedido, pela raiva que as suas palavras transbordavam. Eu nem queria acreditar!

 

Recentemente aconteceu em Portugal outra história que complementa esta (e se calhar tantas outras que não chegam ao conhecimento público): 

 

“In Publico 04.05.2008 - 13h28

Menores levados para o Refúgio Aboim Ascensão

Algarve: três crianças retiradas a casal de turistas alcoolizados.

 

Três crianças – com um, dois e seis anos de idade – foram retiradas anteontem aos seus pais, um casal de turistas irlandeses que tinha acabado de chegar a Vilamoura e que foi levado para o Centro de Saúde, em coma alcoólico. As crianças foram entregues ao Refúgio Aboim Ascensão mas já estão na posse dos pais.

O tribunal de Loulé deu ordem para que as crianças fossem devolvidas aos pais, depois de estes terem tido alta hospitalar, conta hoje o “Correio da Manhã”.

Tudo aconteceu quando, no próprio dia em que chegaram ao Algarve, os pais, com 32 e 34 anos, entraram no hotel, depois do jantar, alcoolizados. “O pai entrou e caiu no sofá. Não se levantou mais. A mãe vinha a cambalear com uma criança ao colo e o bebé de um ano vinha dentro do carro empurrado pela criança de seis anos”, explicou um funcionário do hotel, citado pelo jornal.

Devido ao estado dos pais, que deram entrada no Centro de Saúde de Loulé, foi chamada uma técnica da linha de emergência da protecção e prevenção de jovens em risco para que fossem encaminhados para uma instituição, neste caso o Refúgio Aboim Ascensão, em Faro.

As crianças passaram a noite nesta instituição e, ao início da tarde, os pais foram buscar os filhos.”


Conclusão:


”In AEIOU, Domingo, 4 de Maio às 15:46

 

“Casal embriagado:
Filhos devolvidos aos pais. Irlandeses podem ser acusados de abandono

Os dois meninos, de 1 e 6 anos, e a menina de 2 foram entregues aos pais pelo Refúgio Aboim Ascensão, que os acolheu na madrugada de sábado. Os pais tinham-se embebedado e caído ao chegar ao hotel.

As três crianças irlandesas foram ontem devolvidas aos pais pelo Refúgio Aboim Ascensão, Faro, que as acolheu. Os progenitores, irlandeses, estavam a entrar com os filhos na noite de sexta-feira num hotel em Vilamoura, quando ambos caíram no chão, embriagados.

O seu comportamento acabou por levar os funcionários a chamar a GNR e as autoridades médicas, que contactaram a Segurança Social, entidade que accionou a Linha de Emergência Infantil e acabaria por conduzir os menores ao Refúgio Aboim Ascensão.

Depois de terem sido observadas no Hospital de Faro, as crianças deram entrada naquela instituição já de madrugada, contou à Lusa o director do Refúgio, Luís Villas-Boas, que se mostrou preocupado com a sua segurança.

«As crianças deviam ter ficado aqui até que o tribunal abrisse, na segunda-feira, pois estariam protegidas», desabafou, acrescentando que os menores estiveram na instituição apenas cerca de sete horas.

Depois de as autoridades judiciais terem ordenado a entrega dos menores à família, o casal, de 32 e 34 anos, foi buscá-los cerca das 12:00 de sábado ao Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, precisou Villas-Boas.
«Se esta família estivesse num apartamento de chave na mão, sem ninguém por perto, imagine-se o que lhes podia ter acontecido», alerta, lembrando que o comportamento irresponsável dos pais colocou as crianças
em perigo.

Os
menores dormiram algumas horas no Refúgio e viram televisão durante a manhã, conta Villas-Boas, que diz ter conversado com o menino mais velho e com os pais, a quem deu uma reprimenda, tendo estes ficado calados.
«Eles estavam preocupados com o facto de poder haver imprensa por perto», disse, acrescentando que os pais saíram de madrugada do Centro de Saúde de Loulé, onde estavam a ser observados, à revelia dos clínicos.·

O caso está a ser avaliado pelo Tribunal de Família e Menores de Faro, sendo que o casal poderá ter que responder por um crime de exposição ou abandono.”

 

Com estes exemplos o que terá acontecido com a Madeleine? Apenas correu mal.